26 de dezembro de 2012

ABORÍGENE

Um coração feito gruta 
a ecoar tantos gritos, 
a ocultar cantos e ritos, 
abrigo
a uma bruta chuva.

25 de dezembro de 2012

WAVE

O mar, filho do céu sangue azul, nasceu com cabelos crespos
No berço a embalar sonhos de marés, cresceu com as ondas
Amou as mais belas sereias ao passear suas espumas à beira
Trouxe muitas conchas, algas e estrelas espraiadas pela areia
Deglutiu sóis e luas, afogou náufragos, alimentou pescadores
Mas nunca deixou de ser o que é transformando a si mesmo
Mar é motor, senão, mar morto é

20 de dezembro de 2012

QUIROMANCIA

Palmistry, 1908.
A palma é livro, carrega manuscritos à caneta ponta fina. Assina sua sina aqui. Sai a perfurar os sulcos, a indicar caminhos percorridos e rumos a serem traçados, poro a poro. Deixa impressões digitais em copos, corpos e maçanetas, tem a chave para a vida, baú revirado ou trilha secreta. Ilhados pelo destino. Feitura toda de tricô divino, por vezes sangrando pela falta do dedal mais adequado para o apontamento dos acasos. O passado agulha o presente que pressente um futuro costurado à lembrança do que já se reviveu noutro plano. Quando se está sem planos há clarividência às mãos lavadas várias vezes. TOC ou toque repentino. No fim, o nanquim de se ser ainda permanece. Quantos anos, amores, filhos terá a mão? Por quantos volantes, lemes, guidãos os dedos passarão? Punho livre, magia de cigana, soco no vento? Quem lê, não se engana. Tudo é uma questão de reflexologia.


8 de dezembro de 2012

ATROPELAMENTO

Um caminhão porte abissal passou por cima de mim. Deu voltas insistentes com seus grossos pneus sobre o meu coração de sapo, inchado na beira da estrada. Papoquei. Doeu tanto assim porque sobrevivi. Entreguei-me sem entregar de todo, por saber das opções que a vida me dava: inclusive a morte. Senti cada fisgada e ardor com as camadas de sal derramadas de sua carga sobre o meu dorso em viva carne, que o choro, por ser tanto, amorteceu metade do peso do momento. Passageiro. Caía de cansaço, dormia vencida pelo sonho de levantar melhor no amanhã, como um sol que nunca falha. Veio a tardar. Quando acordava, a sensação era pior, cada vez mais dilacerante. Os dias seguintes não vinham como uma promessa de cura. Precisava de remédios que não existiam para o sentimento mais real de todos. A paixão não pressupunha lenitivos. Não podia ser amor, eu não podia amar - era o que o motorista me dizia convicto. Ele queria me ver roxa, sem ar, até o músculo voltar à alegria, para passear entre meus átrios novamente. Mais do que se entreter com meu sofrimento, o guia não esboçava sorrisos de vingador ou encenações de vigarista. Ele parecia querer me dar um aviso lancinante, que ia além dos seus anseios primordiais. Examinava meu urro animalesco sem regojizo aparente, mas com uma frieza voraz. 


23 de novembro de 2012

L'AMOURIA


Até a luva de pelica, às vezes, cria farpas.
Dedos afeitos à harpa, sem pertencer a altas falanges.
Ao primeiro ranger de dentes, vai ter-se com as facas.
Fraca mente por ser tão franca, pede perdão aos anjos rivais.
Vestia roupa branca ao limpar o choro oco das santas.
Preparava a sangria para os cristãos em castiçais.
Bebia água benta de quem sentou no colo da batina.
Batia a cabeça do coroinha na parede à luz de velas.
Tinha sede de vingança, mas o prato estava quente.
Assoprava a sopa com todas as letras que quisera.
Escrevia de caneta na barra da saia sem bainha.
Levantava a anágua para em novo emprego ser aceita.
Tombou à mesa dos burocratas e fora devolvida de bandeja.
Correu todos os riscos, então se pôs a descansar a vida.
Arfava o peito quando o leito era desfeito por ordem despedida.
Despojava-se de qualquer direito, por que amar deveria?

20 de novembro de 2012

FILTRO

Blindar a alma com as amarras do pensamento ou deixar entrar o que for pelos poros experienciais? Eu poderia sugerir ao espírito somente sossegar no calor das irradiações inframenores, porque se formos grandes sendo pacíficos não haverá tanta incidência desses abalos. O outro há de ser uma ponte a nos conduzir pela mão da empatia. Mais dia menos dia, alguém precisará de nós como quando também precisamos de uma saída. Por isso, se sair, não feche as portas, permita outras vias de acesso. Procure saber trafegar, chegar e, então, permanecer como um doce olor orvalhado, lado a lado, uma presença marcante sem provocar marcas de expressão triste no rosto. Evite o uso de máscaras, caso estas não sejam utilizadas solenemente para proteção contra tantas caras e bocas amargando à solta por aí.

A percepção aumenta na mesma proporção em que o medo diminui. Para o amor não deve haver medidas. Se houver, não há de serem rasas, finitas, e que se meça ao manter abraços abertos a todos, especialmente aos mais fechados que me cruzam os caminhos com seus galhos retorcidos, trucidados pelas podas constantes. Costumava produzir espinhos nessas horas, iludida pela possibilidade de atingir a quem me tomou as pétalas para um jogo de mal-me-queres. Quem acabava por sangrar era, tão somente, eu - empelotada dentro de mim mesma. Tão bom sentir o peito encharcar o ego sem deixar engrossar o caldo existencial, ver lágrima bem chorada afinando moléculas para, em seguida, sorrisos maiúsculos lavarem as máculas! 

30 de outubro de 2012

BEBEDOURO



Ao tomar porta-retrato no abraço, embebi meus olhos de tanta lembrança...
Criancei, corri, caí, senti a dor só após um tempo, até que chorei, sem colo
Tentei descolar teu cheiro da mente, embora forte presença que não ignoro.

Então, teu corpo ressurgiu e me sujou de alegrias, suou todo o meu deserto
Ressoou companhia ao mirarmos miragens idênticas, redescobrimos a fonte:

Onde? Quando eu quiser um trago, tu me trarás beijos e gim.
Mas quando quiseres de mim um afago, terás sede sem fim.

23 de outubro de 2012

HABITADA

Lacrimal nenhum fará à natureza
Quando esta se emprenhar de tua reza
Vai brotar a réstia da esperança
Feito um índio a migrar desse planeta

Canoa furada em lagoa mansa

Não vira em maré ao atingir enseada
Amarrado um chocalho no pé
Sobe ao galho sem querer pertencer

O amanhecer não foge à regra

Existir é negra fonte, inesgotável lida
Ao anoitecer em sonho punhado de areia
Faz um bebê amamentar-se do passado  

Ilha pariu uma porção de terra

Sua filha então passou a ser circundada por água
Todos os lados choraram por ela
Bolsa estourou mar em vida.

19 de outubro de 2012

IMATERIAL

251  memories, feelings of being lost and found, soulful
Embora sabendo da existência daquela seção de Achados e Perdidos, fez questão de levar tudo a perder, porque tudo já estava meio que perdido mesmo. A esmo... Esquecer poderia aquecer a alma com algum equilíbrio: ebulição de vida. Foi embora e desapegou para sempre do que supôs tão memorável quanto uma estátua de bronze no meio de uma praça, deixou dentro de um cofre guardado por alguma boa alma ou algum gênio da lâmpada o seu arsenal de vícios e vicissitudes. Agora se sentia mais viva, sangue novo em transfusão, o punho livre. Do abandono consentido, encontrou-se ao final. E pelo extravio de olhares, alhures, ninguém mais fora encontrado por ela. 

16 de outubro de 2012

ENAMORAMENTO



Por: Paola Benevides

Flerte entre retinas nunca se dá em linha reta.
Mar se pôs a engolir horizonte com sol e tudo.
Fez-se a noite, então, para os cegos de amar.
Despencou luar cá dentro do vesgo momento.

E agora, como enxergar todos os náufragos a salvo?
Como atingir o alvo dos corpos em beleza reinantes?
Assim, passaremos a ver esses espíritos que somos.
Dentro de um sonho, à espera das estrelas cadentes.

15 de outubro de 2012

QUEM

Você é
Você erra
Você fé
Você ferra
Você, na sede de ser, até cede
Pede à maré para lhe trazer na multiplicação dos peixes.
Você nada
Você tudo
Você no mundo do poço
Você no topo do fundo
Você foi e já era
Água salgada, guelra e paz
Você é o que lhe faz
Como tanto fez
Você é espera
É lama, grama, tempo e todo esse arfar que jaz na terra.

10 de outubro de 2012

O QUE PAIRA NO AR PERMANECE


Às vezes, apego-me a certas coisas tão irrisórias, como ao besouro que rondou meu quarto há quase um mês e hoje ainda se encontra sobre um chapéu feito bótom, meio assim: fossilizado.

7 de outubro de 2012

TIMING


O tempo fazia ponteiros de relógio com bigodes de Dali
Quando o velho acometeu-se da perda dos cabelos,
Mais nenhuma mecha havia ali.
Compunha odes e réquiens a todo instante
Enquanto crianças degolavam seus brinquedos
Sem tantos medos, davam corda na vida 
Pulavam barbante sem nenhum alarde.

Acionavam o alarme sem demora na saída
Uns vão, outros ficam - que assim ela permita
Não há regra que se repita, é pelo fim que se começa
E para não perder a hora nem a cabeça, boneca:
Esqueça! Os segundos ainda serão os primeiros
Os minutos farão minuetos em sol maior
Para os cucos na porta de entrada.

28 de setembro de 2012

FLORIDA



Cultivar esperanças é manter as plantas verdes.
Criar expectativas é como regar ervas daninhas.
Cresce mato seco e alto ao redor dos covardes.
Caule de árvore enrijece tal espada sem bainha.

O tempo veio ensinar a manter sua lida fibrosa.
Semear, através de ventos fortes, fresca brisa.
Colher, em meio a frutos bons, vida frondosa.

11 de setembro de 2012

EXCITAÇÃO


Não querias me ouvir a leitura em voz alta
Mas despir meu equilíbrio com tontura
Óculos trucidados sobre o colchão
Pelo peso dos nossos corpos

Tão mortos de tesão estávamos
Que não lemos na entrelinha
Outros livros é que folheávamos
Abaixavas a minha calcinha

A citação na ponta da língua
Palavra não dita, ejaculada
Verbo comido
Locução enrabada

9 de setembro de 2012

ÓSCULO NO ECURO


Ainda estou traumatizada com o golpista
Quis me matar sufocada com aquele beijo
Enfiou sacola na cabeça sem deixar pista
Como ratoeira aguarda mordida no queijo

Faltou muita saliva à minha baba no dente
Afinal a boca tem de ser bem chupada
Percebi que eu esfomeava de repente
Quando era para me sentir incomodada

Mecanismos de ação bactericida
Não nos deixam imunes à nada
Se bem que há boca contorcida
Que parece até lamber calçada

Senti a língua se mexer com certa raiva
O suor foi me prendendo todo o fôlego
Roubo de hálito dá cárie? Não que eu saiba
Mas senti: barbárie de amor é um fenômeno!

8 de setembro de 2012

É PALAVRA


Não te venha às pressas me dizer
O que não quero lhe faltar ao partir
Nem vou me falhar com tolas promessas
Nunca mais me terá de cumprir

Palavra, nos lábios, confio nela
Tal comida na goela empurrada
Derramada em vômito por culpa do engasgo
Rasgo nenhum de fastio vai calar a minha boca
Do âmago, do estômago ou o que me dela sobrar

Tenho calo, estou rouca
Corda vocal bamba
Pendura existência em forca
Perdura a morte na lembrança

7 de setembro de 2012

UMBRAL


Desgosto dos egocentrados a mirar o próprio frio
Impotentes de atenção ao bem, a outrem, ao filho
Encolhem-se dentro de sua mansão teto de vidro
Quebram elo com a facilidade de gelo em salpicos

O umbigo descende de um rei dentro da barriga
Abrigo para a indiferença e suas coisas plásticas
Só pensam no si e no não, perderam a memória
Recusam carinho e briga por fenecerem paixão

Dou de ombros agora a quem pedir uma mão
E esquecer do irmão desabraçado lá fora...
Seres de umbral que se pressupõe em brilho
Notarão que o trem saiu do trilho com demora.

6 de setembro de 2012

ARDIL


Acendi uma vela sobre a tua lápide
E lá fiquei presa à espera dos meus dias
Defumava ausência entre incensórios
Vendo cair as tardes do que amanhecia

O frio a me transpassar era avassalador
Mas me mantive lá com lábios roxos
A relembrar do amor tal pedra de rio
Matando peixes feito um chinês sábio 

Até o tempo é falho aqui, vou esquecer de ti
Estou indo embora, querido, pavio encurtou
Derramou-se em cera teu fogo, coração oscilou
Em minha mão que não pediu por consentimento

Não me apague a luz
Lave pus com vinagre
Consagre na dor
Um grito por alarme

Quererei apagar minha última chama a teu lado?
Não. Teu além está aquém de mim, meu amado.

5 de setembro de 2012

MOCINHA OU BANDIDA?


Sem balas na pistola
Só doces dentro dos bolsos
Quem precisava saber?

Não enrola, senão eu atiro...
- Descola logo essa grana!
Miro no colchão
Tem dinheiro debaixo da cama

- É a polícia, lá vem ela!
Brinca com a sorte
Quem sorri para a morte
Estando banguela

Velha injusta essa Justiça
Sem pesar nenhum dos lados da balança
Vendada tal uma criança
Parece mais usar uma dentadura postiça

4 de setembro de 2012

REVOADA


Quando o âmago anda amargo
Melhor amar, melhor atar
Um afago à cintura e urrar

Trepar no salgueiro
Salgar o sapo
Evitar príncipes e seus princípios de bueiro
Amarrar a boca e comer apenas pássaro

Borboletas no estômago?
Tanta leveza me põe magra
Tragam-me asas ao ventre
E me alcem voo no flagra!

Quero bico na auréola do peito
Seio de anjo que tem sexo
No meio do teu plexo solar

3 de setembro de 2012

ENLUTADA



Estou de luto
Pelos que matei em pensamento.
Estou na luta
A favor do armamento em massa.
Desamar é tiro e queda
Caiu? Amor é febre que dá e passa!

É cu e cura, sua coragem ameaça.
Faz engatinhar, depois engatilha.
O dedo afunda até alcançar ferida.
Bulina o medo, faz figuração e figa.
Muitas vezes, nem faz nada, espera.

Desconfigura toda uma raça com sua granada.
Bomba de sangue que recocheteia, erra de veia.
Cheia de véus, bolo de casamento com recheio de vaia
Enquanto a Terra treme, o amor lhe trai.
Que este inferno de céu só loucos atraia.

2 de setembro de 2012

VIA MUNDO


Não sou estranha, sou estrada.
Dirijo meus passos
Sem precisar ser refreada.
Posso parecer estrangeira
Em  meio à legião de fantasmas.
Pele de bruxa reluz na fogueira
E me deixa mais pálida.
Parecer alma não quer dizer
Que tão cedo vá perecer.
Tenho medo só do que me enfada.
O além me abre horizontes
Feito uma via de mão dupla:
De um lado, arco-íris,
De outro, pote de ouro.
Tudo assim, muito certo.
Aberto caminho.

1 de setembro de 2012

OCA


Não há vazio por dentro
Quando se é abrigo

Nunca disse que era santa
Já bebi muita cerveja
Serrei pau oco e fiz cabana
Cruzei feito égua em porta de igreja

Sob minhas palhas, habitaram muitas famílias
Brasília, Ceará, Maranhão e Santa Catarina
Camarão, alguns canalhas e tralhas de coqueiro

Ainda vou amanhecer Iracema em Copacabana
O Rio de Janeiro de minha mãe saiu a pescar uma sina
Mas as naus agora se fincaram pelo Norte

Por sorte, a sabiá fugiu do incêndio à minha palmeira
Sábia, fiz peneira para sol e novo compêndio de rimas

Lá longe lancei anzol
Alcei o hoje como um índigo afluente
Eis o meu dia de índio
Agora sou toda nascente!

19 de agosto de 2012

SQUASH


Andava a tatear o breu sem fim, travando um colóquio com paredes mudas. A voz transformada em bola de tênis batia e voltava no eco do pescoço. Engolindo em seco, fazia do pomo de Adão uma maçã inteira, a gritar quando sacada contra essas surdas divisões de concreto. Cadê a outra raquete? Jogar com a solidão fazia quicar a cabeça com a boca do estômago. Manter-se desperto era quase sempre um desporto feliz. [...]

15 de agosto de 2012

ABDUÇÃO OU CIRURGIA ESPIRITUAL

Se bem me lembro, há dez anos tive um sonho que me deixou intrigada por bastante tempo. Cheguei a registrá-lo em cadernos antigos para não deixar escapar à memória, entretanto hoje não saberia dizer o paradeiro dessas minhas anotações adolescentes, o que poderá desvirtuar pela falta de detalhes a minha descrição.

Encontrava-me em um lugar escuro e emaranhado de gente. Parecia uma larga sala de espera de um consultório médico lotada. Pude identificar uns poucos rostos conhecidos, a maioria eu jamais havia encontrado nesta vida. Todos pareciam estar cientes do que iriam fazer, do que estava por acontecer. Eu já me sentia perdida, tentando me aproximar de quem era familiar. Passava por entre as pessoas para ver se achava uma saída e, também, o motivo de estar ali. Até que vi uma intensa luz branca a brotar em meio àquela penumbra, como se alguém abrisse uma porta. Ao longe pude enxergar com dificuldade o que parecia ser um médico ou o seu assistente a procurar pelo próximo paciente a ser atendido, quando ouvi chamar meu nome. As pessoas, então, abriam passagem sorrindo para mim.

Alcancei a entrada iluminada e fui encaminhada a uma espécie de cápsula. Naquele ambiente estavam todos de branco, quando não trajados de verde-claro, com óculos de proteção transparentes e luvas. Tudo impecavelmente limpo e claro. A atmosfera era leve e esfumaçada como se houvesse uma propagação de gelo seco. Deitaram-me em um aparelho como que feito de aço ou alumínio, extremamente frio. Mergulharam a minha perna direita em alguma substância até ficar adormecida por completo. Em seguida, examinaram a minha panturrilha, fazendo uma discreta incisão a fim de depositarem com um tipo de pinça uma peça pequena e retangular, tal uma placa metálica na minha carne. A microcirurgia ocorreu sem dores nem sangramentos, apenas tive uma leve sensação de letargia, como que anestesiada por uma hipnose muito sutil.

Quando despertei, senti-me aliviada, o espírito tomado por uma leveza inexplicável. Especialmente, porque nessa época sofria com dores terríveis em minha perna direita, poucos centímetros mais curta que a outra. Cheguei até a engessá-la por ter sofrido uma torção no pé que me levou a quebrar o quinto metatarso.  Ademais, à essa experiência, que identifiquei por sonho e relatei a poucas pessoas, alguns chamaram-na de abdução por seres extraterrestres, outros de operação espiritual com entes de outros planos me ofertando essa assistência médica. Todos me questionaram por que ainda não tive a curiosidade de tirar uma radiografia dos membros inferiores.

11 de agosto de 2012

22 de julho de 2012

IMERSÃO




O banheiro sempre foi um dos lugares mais propícios à reflexão constante, à conversa interior, ao canto ecoado, paradoxalmente estendido pela estreiteza das paredes azulejadas, ao exercício de ser em nudez absoluta. Quantas vezes sentei-me no trono esquecida da minha majestade, por chorar escondida dos outros, mas nunca de mim, por segredar desejos, evacuar vontades, meditar para um deus humano em demasia, por aproximar-me tanto de tantas verdades impressas no tempo desgastado das cerdas das escovas de dente ou nos pelos das toalhas que vão perdendo o colorido e a aspereza a cada banho, com os ralos aparando o grosso teor das células mortas, urina, catarro e cabelos.

Lá já escorreguei, vomitei, gozei e caí. Fiquei horas deitada no chão pensando na vida, em como poderia ser o decurso dela. Já procrastinei estudo e trabalho lavando o rosto a cada trinta minutos, sem que houvesse suor, nem o menor sinal de oleosidade na pele, só pela ânsia da partida dos locais aos quais me inadequei e pela saudade do encontro com meu eu mais próximo, desmascarado de padrões, patrões ou correntes. Resguardada do medo, retoquei penteado e maquiagem, ensaiei meus próximos movimentos e falas, como se o mundo fosse um teatro shakespeariano. Mas era... Muito li enquanto aliviava outras necessidades, cometendo um ato de privacidade meio anfíbia, feito aquelas pererecas que conseguem invadir o box e querem ter um pé na água, outro no piso, fugindo da realidade pedregosa em terreno liso, escorregadio. 

Ainda hoje, aprecio confessar caretas para o espelho, desafiar-me com o olhar e o corpo, treinando um Strip-tease com bocas e caras antes do chuveiro, até conversar em outras línguas, puxando da alma alguns personagens latentes, estrangeiros de si próprios. Seja em casa ou no shopping, nos bares ou em restaurantes, sempre há uma cabine vaga a me fazer divagar por um momento. Os sanitários públicos mais limpos me permitem confidenciar com algum conforto as tragicomédias da vida, quando não, a imundície rabiscada nas portas, variando entre recados de amor pornográficos, a poemas de Charles Bukovski verdadeiramente me libertam.

20 de julho de 2012

INEBRIANTE


à D.


Teu perfume perfura todos os instantes
Atravessa o lume bruxuleante dos castiçais
Arranca pólen, lençóis e torrentes
Não sais de banho em corrente nem com aguarrás!

Impresso à carne, ao cerne da minha questão
Elabora vertigens com o dedo apontado à lua
És criador e criatura em tua prestidigitação
Desfaz o medo através do amor maior

Teleguio-me pela ação do teu olor, meu favorito
Ornado em cor de sensações primaveris
Sobrepostas em estantes: frascos estonteantes
Feito rito de passagem, sigamos sem gris ou nós

Só seremos livres entre os sóis pintados nas telas
A sós com o quente da alma e o bem ao nosso redor
Havendo entressafra de jasmins, produziremos velas
Da aromática dos amantes, os querubins sabem de cor

17 de junho de 2012

PREVISÃO



Lembro-me vagamente de quando um colega zen de faculdade me revelou as suas cartas de tarô e me mostrou sobre o birô dos professores alguns caminhos pelos quais possivelmente eu poderia trilhar, por expansão individual ou divina ou por teimosia minha desafiando a trajetória cósmica. Ele me falou que eu iria passar por um período crítico no auge dos meus vinte e poucos anos, mas que depois de um tempo voltaria a ficar bem, estável, só não me recordo em que área, se amorosa, profissional ou no todo mesmo. Bom, o certo é que estou beirando os trinta e fugi de um provável casamento para experimentar um novo relacionamento e ainda não encontrei emprego fixo, muito provavelmente porque não tenha me esmerado na procura, aguardando minha satisfação se manifestar em grau mais elevado. Isto em razão da minha propensão às artes ser enfática, mesmo sabendo que me manter é preciso e ser artista neste país, quanto mais neste estado, faz-se árdua tarefa com pouca compensação financeira. Eu teria de ser um achado literário, plástico, performático e musical, ter reconhecimento ampliado. Às vezes acho que faço pouco, contudo olho para trás e vejo o meu rastro por aí, então me orgulho, nesse pedacinho de mundo que se perde entre o real, o virtual e o ficcionado. Abstraio sem me trair muito. 

Atualmente, como graduada em Letras, faço trabalhos fortuitos em instituições de ensino na área de língua portuguesa, inglesa e literaturas, entretanto lucro mais como freelancer de revisão de textos, transcrição de áudio, vídeo e também tradução. Empenho-me na administração prazerosa de uma porção de blogues e redes sociais, além de me enveredar por vertentes as mais alternativas, como ter produzido um sarau em um bar cultural da cidade, ter pertencido a bandas de rock e com novas ideias musicais sempre moventes no cenário local. No momento, tenho me metido a mostrar a cara em curtas metragem, brincando de ser atriz no meio da turma do cinema na universidade. Falta-me apenas por o pezinho no teatro, para fechar o ciclo das artes e me tornar deveras multimídia. Sinto que isto não demorará tanto. Ainda pretendo expor minhas colagens e outros trabalhos gráficos afins, explorar novos meios. Tenho a mão boa. Alguém muito especial me falou um dia que sou meio Midas. Então prefiro enxergar-me assim, artesã nata do chapisco ao ouro. O que virá me provoca ansiedade, tenho dúzias de dúvidas, porém a maior certeza de que tudo valerá a pena reduz o desgaste. Almejo viagens e enriquecimento espiritual, acima do que for tangente e tangível. Não consigo me vislumbrar mãe, quero todo o tempo para gestar as minhas obras, mais tarde, quem sabe, ter um menino. Deus que me guarde e aguarde.

7 de junho de 2012

PERFUME

Felicidade não me cheira bem, 
Quando se esvai a cada passo. 
Feliz: nem o nariz do palhaço.

Paola Benevides

6 de junho de 2012

EXCREÇÃO


De três catarses orgânicas, as sensações mais prazerosas que defini para mim foram: dar uma mijada quando se está muito apertado com o acúmulo de líquidos na bexiga; ornar uma bela cagada com mil peidos despreocupados no momento em que suas tripas não podem segurar por mais nem um segundo; e gozar, suando brutalmente por todos os poros, acelerando batimentos cardíacos, perdendo o fôlego e embaralhando as outras sensibilidades por tamanho alívio, a ponto de nos fazer urrar. Os homens concretizam o ato ao lançar o sêmen ao mundo.

Afrouxar as partes baixas me parece o melhor dos descarregos corporais. É certo que existem as lágrimas, o vômito, a cusparada ou a escarrada de uma espessa placa de catarro preso, por exemplo, mas imagino serem esses tipos de despejo os mais desconfortáveis, por causarem alguma dor ou náusea dentro do refrigério gerado pela expulsão de substâncias desnecessárias ao organismo. No caso do choro, o que se é liberado mesmo são as dores de alma, irretocáveis. Pranto este que pode ser acometido pela felicidade também. Já as gargalhadas são um extravaso quase insano quando ri-se de nervoso ou da desgraça do outro. No sono, o ronco é uma liberação das mais inconvenientes, óbvio que para quem dorme ao lado do causador. E tudo começa com um bocejo, essa soltura de ar pela boca que denota, além do sono, um explícito entediamento. Não bastassem tantas crianças no mundo para sofrer com suas ejaculações existenciais precocemente, imaginem o parto como deve ser, certamente a experiência de soltura mais sublime é haver um ser dentro do outro. O que me leva a crer que jorrar faz bem e transbordar é para lá de humano.

5 de junho de 2012

CIRCULAÇÃO

Circulation through the heart

Torça para que um dia
teu abatimento cardíaco vire força, 
que mesmo no leito tenhas peito de viver 
com o coração a pular estagnadas poças.

28 de maio de 2012

EXTRA

Por: Paola Benevides

Eu sou mim com rim e bexiga, 
até os confins no fundo, dos meios. 
Nunca dou-me por mexida, 
mas inteira - mão, boca, ovos e seios 
nessa existência incompletudinal: 
assada, assim, vim de outro mundo.
ET, CÉTERA E TAL.

17 de maio de 2012

SORRIDENTE



Distribuir sorrisos:

Muita incerta gente encara 
como receber esmola e se ofende. 
Mas não entende 
Que só pode arcar com dentes
Uma boca rara.

14 de maio de 2012

SANTINHA DO PAU OCO

Paola Benevides

APRECIO O CIO DA PRECE
AS ORAÇÕES INDEFINIDAS 
NO FUTURO DE UM PRESENTE SEM LAÇO
TAL COLEÇÃO DE CAIXAS DA SEX SHOP
CONTENDO CONSOLOS
FEITO URNA DE DÍZIMO
ANGARIANDO FUNDOS 
DE FIÉIS TÃO RASOS.

10 de maio de 2012

DESAPEGO

Vínculos requerem tantos cálculos que eu prefiro os náufragos, eu perfuro ilhas com meu desejo de ser mais, por simplesmente merecer. Eu queria navegar pelo Mar Báltico, Galápagos, conhecer meus ancestrais, dirigir perigos. Vagar por aí sem ter tempo de cultivar inimigos, sair desse apartamento e propor um parto sem pai, nem mãe, nem filhos. Partir! Antes ser filha do mato e irmanar com todas as flores tecendo indrisos, que viajar por dentro dessas dores parentais, eternamente sucumbida à cria lambida. Antes, paz. Quero ir de uma ponta a outra do meu sorriso como se eu pudesse me pôr em meu próprio horizonte, ensolarada de amanheceres pródigos. Avante comigo quem quiser, quem puder me ver, com fé no trilho e no brilho de só se ter, nunca só...
E afinal, o que se é senão isso?

23 de abril de 2012

ASSIM SEJA




Em meio a todo esse emaranhado humano quase a dar-me um nó, sinto uma presença suave a elevar suas mãos à minha cabeça e bendizer o que eu mal disse. Acolhimento. Só não comparo ao amparo de mãe, porque nem todos o têm ou tiveram um dia. Mas o meu raiou, maior e com mais sim. Um pai de paz sem fim. 

19 de abril de 2012

RELÓGIO

Relo no giro das horas e começo a contar... 

Sobre minha vida.
Atraso o relógio que me quer apressar alegrias.
Acelero os ponteiros da morte pisando areia retida em ampulheta.
Onde guardarei as cinzas da espera agora senão na tua partida?
Casa sem teto, avisto um cometa.
Tudo é passagem secreta.
Tardia noite, enfim.
Viajo incerta do meu destino com toda esta bagagem.
Granizo choveu no caminho. Não sinto mais nada.
Sob asa de terna mãe Gaia, eternizo assim.

15 de abril de 2012

CAMA DE CASAL


Um cobertor de abraços para dias frios.
Um travesseiro de barriga para noites grávidas.
Um colchão de pernas para tardes entrelaçadas.
Um sonho guardado dentro da fronha.

30 de março de 2012

27 de março de 2012

"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus".



A frase que acena para esta postagem é do Oswald de Andrade, considerado o modernista mais inovador e rebelde de seu tempo, se de vanguarda, então além. Ela está no encarte do último disco da Legião Urbana, a banda de rock de preferência nacional, a mais proeminente em fervores líricos, eu diria, ao menos para mim. Confessadamente, faz parte do meu acervo pessoal em completude, haja vista possuir a discografia em CDs originais (raro K7 ou LP) apenas de dois grupos, os meus favoritos desde sempre: Legião Urbana e U2.

Mesmo tendo plena consciência de suas influências explícitas na música internacional (do pós-punk), por terem bebido na fonte de nada menos que The Smiths, The Cure e tantas outras, o valor expresso por suas canções acaba sobrepondo qualquer comparação meramente estética pela paixão suscitada em tantos jovens - os de ontem e os de hoje. Lembro de ter minhas audições constantemente interrompidas pelo meu irmão, na época, ao qual sempre devotei um grande respeito, não só por aquela concepção de ser o mais velho, mas principalmente por manjar muito bem desse assunto, apesar das implicâncias. Ele torcia o nariz em críticas ferinas ao gestual Morrisseyniano do Renato, aos timbres de guitarra similaríssimos aos de fulano e beltrano, os quais passei a garimpar por curiosidade quase instantânea. Isso nunca tirou os méritos de ninguém, pelo contrário, continuei gostando com lucidez e, melhor ainda, com o bom gosto estendido a outras searas musicais.

Especialmente pelas letras de Renato Manfredini Jr., o Russo, é que me sinto sensibilizada, tornei-me mais humanizada e amadurecida dos meus onze anos pra cá. Não seria tanto se revelasse que meu gosto pela escrita se aflorou a partir daí, na adolescência. Abastecia-me de encantamentos em minha introspecção naquela época, viajando nas melodias, brincando de tocar teclado no jardim da minha antiga casa ou mesmo cantando trancada no quarto, fazendo performances para mim mesma. Ensimesmada nem tanto, levando em conta que compartilhava o som alto com os vizinhos e alguns deles respondiam com mais Legião da janela. Era bonito de se ver. Período deliciosamente solitário, a não ser quando ia para a escola e compartilhava discos, álbuns de foto dos ídolos, revistas ShowBizz, cadernos com poesia e rabiscos.

Os tempos de escola chegavam ao fim. No terceiro ano do ensino médio, pré-vestibulanda ainda, conheci uma menina mais tímida do que eu. Ela se chamava Natália, era brilhante, o primeiro lugar geral e aquele blá-blá-blá todo que faziam em torno dela a incomodava veementemente. Vêm à mente agora as bochechas dela ficando cor cereja por tudo isso... Sempre soube que o que mais a instigava era falar sobre rock e livros com alguns poucos colegas, senão falar, era mais de ouvir. Afinidades, exceto pelos conflitos interiores pesadíssimos com os quais ela se defrontava quando eu emprestei o disco A Tempestade ou O Livro dos Dias, este aqui do link disponibilizado na íntegra.

Eu me culpava por ter feito isso naquele momento de tamanha crise, porque julgava as canções por demais tristes. Natália suicidou-se e a atmosfera dessas músicas me marcou deverasmente. Reouvi-las hoje já me traz frescor à alma, pois percebo mensagens bastante positivas cantadas por Renato nas entrelinhas, por mais que este álbum tenha selado a sua morte (favor considerar aqui a sua partida como uma temporada pela eternidade e um rico aparato para esta juventude).

26 de março de 2012

ENCARNADA

Tenho estranhado minhas tripas em nó, temo que elas encontrem o coração logo cedo pela manhã e eu não acorde para a vida sem massagem cardiorrespiratória, piratória nossa, senhora desaparecida. Minha garganta tem doído, também meu colo um dia adúltero. Seriam os estridentes pesadelos sufocando até o grito dos antepassados-batidos? Tendo a pensar que só se deve cortar o mal pela raiz na base do pescoço e à base de muita pancada. Minha cabeça parece um coco cheio de vida e pensamento que caiu do pé ainda verde, distribuindo doçura ao mesmo tempo que mata toda a sede. É dura a casca, mas quem me sabe por dentro de verdade engole meu grude, meu lado mais rude e meu açude inteiro, jamais será náufrago. Vermelho o viço dessa visceralma que mancha lábios verborrágicos de tanto batom. É alto o mar e já se avista com perigo a vinda do próximo paquete (A expressão "estar de paquete" é ocasionalmente usada por razões históricas[1] para se referir a mulheres em seu período de menstruação. Outras fontes sugerem diferente explicação: Tal referência se deu por comparação entre o tempo exato de 28 dias para realizar o trajeto entre o Rio de Janeiro e Liverpool, no Reino Unido, pelos novos navios a vapor (os paquetes) e o ciclo menstrual.)

19 de março de 2012

LAPIDAÇÃO DA EXISTÊNCIA

Por Paola Benevides

Uma lápide de mármore carrara eternizaria mortais? O Renascentismo que o diga com seu David de Michelangelo. Causa mortis: intoxicação por calcário. O calvário da Vênus de Milo lapidaria a saudade dos que não mais se encontram nesta vida? Um estatuário de comoções engessadas pelo tempo os vivificaria, portanto.

Pôr uma pedra sobre tudo o que existiu seria extermínio das lembranças mais queridas, mas há de se registrar quem bateu seus pés aqui por sobre a Terra. Há vários chãos de se viver e também muitas terras batidas. Bater as botas limparia todos os passos cometidos, mesmo os que se encaminharam à memória. Uma inscrição na pele e nos átrios da alma, só a morte de um filho. 

18 de março de 2012

SONHOLENTA

Bem que o céu podia se estilhaçar agora no chão só para eu ter o aconchego de um frio natural, sem aquele calafrio forjado de todos os lugares com ar-condicionado, e então embalar meu sono-neném debaixo de cobertas bem grossas.

Queria o afago do vento em meus cabelos feito mão de namorado e meu corpo a roçar o calor do colchão tal um sem-teto descobrindo-se em seu próprio lar telhado.

Aconchego maior esse de concha a abraçar nácar até se transformar em pérola-madre. Mãe é casa onde a gente passou meses a morar, moldar, para depois partir. Mundo é meio de rua, cansa a gente de tanto rodar. O que atenua a vertigem é ter por que andar, mesmo que não se tenha perna nenhuma.

Aqui, ao menos, é permitido sonhar.

13 de março de 2012

Já há nela um sorriso...

Sou janela para porta emperrada. Não precisa meter o pé! Deixo entrar e sair os dias através das frestas da tarde, abrindo e fechando o cortinado estelar como bem o faz a névoa da noite. Protejo do frio. Observo paisagens, aponto pessoas a passar na minha frente e também as faço pular de mim, quando querem brincar de ser pássaros. Às vezes, sorrio. Quando não, eu me tranco. Mas espiono a todo instante.

Uma janelafenestra[1] ou ventana[2] é uma abertura num elemento de vedação arquitetônica, como uma parede. Ela possibilita a ventilação e insolação dos ambientes internos. A palavra assumiu diversos significados devido a esta acepção, em geral relacionando-a com a idéia de vazio. Por remeter ao exterior, pode ser considerada como ângulo de visão, pois permite a entrada de elementos como luz e ar, mas também possibilita a extensão do olhar como um indivíduo que participa da ação observada. É o símbolo da receptividade, da abertura para as influências vindas de fora, da entrada da luz. Representa também a sensibilidade às influências externas. A janela pode ainda ser considerada como sendo um símbolo da consciência, ou um portal para o inconsciente.

5 de março de 2012

QUANDO O ESPÍRITO DA ESCADA SE APOSSA DE MIM


Em francês, a expressão "L'esprit de L'escalier", cuja tradução literal significa "O espírito da Escada" representa pensar em uma resposta esperta quando já é tarde demais. A frase pode ser usada para descrever uma resposta a um insulto, argumento ou comentário inteligente ou esperto do interlocutor que chega tarde demais para ter alguma utilidade. Depois de ir embora, (descendo a escada da tribuna - daí a origem da expressão), encerrar o encontro (tarde de mais) a pessoa encontra a frase justa que teria sido a resposta necessária para seu oponente. O fenômeno é geralmente acompanhado por um sentimento de arrependimento por não ter pensado na resposta quando ela mais era necessária ou adequada. 
O espírito da escada também poderia ser uma frase que poderia ter decidido a discussão se não fosse pelo fato de já ser tarde demais. A expressão foi usada originalmente no livro Paradoxe sur le Comédien de Diderot.

28 de fevereiro de 2012

RÍSPIDA (em atos)


Por: Paola Benevides

ATO I

Rabisco todas as folhas possíveis de uma resma (500 páginas) por semanas, enquanto aponto o lápis até ficar do curto ao inutilizável. A mão doendo. Separo todas as raspas da fina madeira suja de grafite e as coloco dentro da pia, sem tampa. Ligo a torneira a entupir o cano rapidamente, tudo de propósito, a fim de causar algum estrago. Afinal, hoje em dia tudo é artístico. Sendo dano, torna-se ainda mais convincente. Trago-lhes em lodo, portanto, um banheiro transbordante e absurdo!


ATO II

Quero chutar a canela fina daquela mal-amada com minha perna bonita, toda torneada no gesso, quebrar com a quebrada para ficarmos quites na rasteira. Inchar aqueles olhos fundos na base da porrada, com meu punho a ponto de contrair Lesão por Esforço Repetitivo, só por esporte. Tudo para ela saber que caminhar firme e olhar além, tranquilo, é para os fortes. Ama-se também à ponta-pés e a golpes de vista. Tudo é ensinamento. Se for briga, lamento. A intenção de selarmos a paz cela até o cavalo mais arredio. Que dirá esta égua a me coicear, relinchosa... Aceita!

26 de fevereiro de 2012

FRIA

Dou pedrada em lagoa até ferir o dorso do sapo
(só não virou príncipe, porque falta de beijo magoa)
Sou pedra de gelo quebrada a sorrir dentro do saco
(bem depois de levar umas belas de umas pauladas)
Vampirizaram minha alma e agora estou aflita
Exigem que eu dê meu sangue a troco de nada:
- Nada nessa água até ficar com hipotermia, sua maldita!
Então, eu entro nessa fria e fico calada.


31 de janeiro de 2012

AMOR

Eu queria que meu amor sobrasse para fustigar o mundo inteiro, para doar-me na medida que todos necessitassem. Queria um tanto de maternidade embutida, multiplicar os seios, a fim de acalentar e nutrir todos os meus rebentos por adoção não judicial. Queria ver proporções imensuráveis do meu carinho escorrer dos poros para dar de beber aos corações mais empedrados. Queria jorrar sorrisos na imensidão reprimida de tantas bocas, fazê-las cantar silenciosamente a audição do inexprimível. Queria expelir perfumes aos imundos, inebriar seus corpos com um elixir de ervas aromáticas, ser a panaceia das suas chagas, a cura de suas dores, dar longa vida a quem entornar todos os gargalos. Queria lavar com plena doçura na saliva a alma dos amargos, extrair as suas mágoas como quem arranca ervas-daninhas, aguar as sementes de renovação com toda calma, realizar a fotossíntese em respiração profunda, oxigenar os cérebros criadores na intenção de prosperarem nas próximas colheitas. Eu queria estender os braços aos desabrigados, ser casa com teto, janelas e portas escancaradas, sem precisarem me tomar de assalto. Queria ser o teletransporte dos que sentem saudade, a máquina do tempo para reavaliar algumas falhas ou mesmo ser a futuróloga que preverá o avesso de uma catástrofe global. Eu queria ser o olho que tudo vê para piscar no meio da cegueira, projetar nas paredes do estômago iluminação interior. Eu queria não ser o final feliz daquele casal, mas a felicidade infinita de todos com o seu todo indivisível. Eu queria não querer no pretérito imperfeito do indicativo, entretanto minha humanidade indica que tudo permite o pensamento ativo e desejar profundo é possível no plano imaterial. Aqui as verdades estão nuas. Portanto, eu quero sentir minha arte entranhar na alvura dos que propagam o bem, colorindo em toques sinestésicos a amplitude de se ser e de se sim no universo. Sejamamos a todos, enriquecendo-nos com as diferenças dos nossos iguais semelhantes.

Texto: Paola Benevides
Foto/efeitos: David Duarte