2 de setembro de 2012

VIA MUNDO


Não sou estranha, sou estrada.
Dirijo meus passos
Sem precisar ser refreada.
Posso parecer estrangeira
Em  meio à legião de fantasmas.
Pele de bruxa reluz na fogueira
E me deixa mais pálida.
Parecer alma não quer dizer
Que tão cedo vá perecer.
Tenho medo só do que me enfada.
O além me abre horizontes
Feito uma via de mão dupla:
De um lado, arco-íris,
De outro, pote de ouro.
Tudo assim, muito certo.
Aberto caminho.

1 de setembro de 2012

OCA


Não há vazio por dentro
Quando se é abrigo

Nunca disse que era santa
Já bebi muita cerveja
Serrei pau oco e fiz cabana
Cruzei feito égua em porta de igreja

Sob minhas palhas, habitaram muitas famílias
Brasília, Ceará, Maranhão e Santa Catarina
Camarão, alguns canalhas e tralhas de coqueiro

Ainda vou amanhecer Iracema em Copacabana
O Rio de Janeiro de minha mãe saiu a pescar uma sina
Mas as naus agora se fincaram pelo Norte

Por sorte, a sabiá fugiu do incêndio à minha palmeira
Sábia, fiz peneira para sol e novo compêndio de rimas

Lá longe lancei anzol
Alcei o hoje como um índigo afluente
Eis o meu dia de índio
Agora sou toda nascente!

19 de agosto de 2012

SQUASH


Andava a tatear o breu sem fim, travando um colóquio com paredes mudas. A voz transformada em bola de tênis batia e voltava no eco do pescoço. Engolindo em seco, fazia do pomo de Adão uma maçã inteira, a gritar quando sacada contra essas surdas divisões de concreto. Cadê a outra raquete? Jogar com a solidão fazia quicar a cabeça com a boca do estômago. Manter-se desperto era quase sempre um desporto feliz. [...]

15 de agosto de 2012

ABDUÇÃO OU CIRURGIA ESPIRITUAL

Se bem me lembro, há dez anos tive um sonho que me deixou intrigada por bastante tempo. Cheguei a registrá-lo em cadernos antigos para não deixar escapar à memória, entretanto hoje não saberia dizer o paradeiro dessas minhas anotações adolescentes, o que poderá desvirtuar pela falta de detalhes a minha descrição.

Encontrava-me em um lugar escuro e emaranhado de gente. Parecia uma larga sala de espera de um consultório médico lotada. Pude identificar uns poucos rostos conhecidos, a maioria eu jamais havia encontrado nesta vida. Todos pareciam estar cientes do que iriam fazer, do que estava por acontecer. Eu já me sentia perdida, tentando me aproximar de quem era familiar. Passava por entre as pessoas para ver se achava uma saída e, também, o motivo de estar ali. Até que vi uma intensa luz branca a brotar em meio àquela penumbra, como se alguém abrisse uma porta. Ao longe pude enxergar com dificuldade o que parecia ser um médico ou o seu assistente a procurar pelo próximo paciente a ser atendido, quando ouvi chamar meu nome. As pessoas, então, abriam passagem sorrindo para mim.

Alcancei a entrada iluminada e fui encaminhada a uma espécie de cápsula. Naquele ambiente estavam todos de branco, quando não trajados de verde-claro, com óculos de proteção transparentes e luvas. Tudo impecavelmente limpo e claro. A atmosfera era leve e esfumaçada como se houvesse uma propagação de gelo seco. Deitaram-me em um aparelho como que feito de aço ou alumínio, extremamente frio. Mergulharam a minha perna direita em alguma substância até ficar adormecida por completo. Em seguida, examinaram a minha panturrilha, fazendo uma discreta incisão a fim de depositarem com um tipo de pinça uma peça pequena e retangular, tal uma placa metálica na minha carne. A microcirurgia ocorreu sem dores nem sangramentos, apenas tive uma leve sensação de letargia, como que anestesiada por uma hipnose muito sutil.

Quando despertei, senti-me aliviada, o espírito tomado por uma leveza inexplicável. Especialmente, porque nessa época sofria com dores terríveis em minha perna direita, poucos centímetros mais curta que a outra. Cheguei até a engessá-la por ter sofrido uma torção no pé que me levou a quebrar o quinto metatarso.  Ademais, à essa experiência, que identifiquei por sonho e relatei a poucas pessoas, alguns chamaram-na de abdução por seres extraterrestres, outros de operação espiritual com entes de outros planos me ofertando essa assistência médica. Todos me questionaram por que ainda não tive a curiosidade de tirar uma radiografia dos membros inferiores.

11 de agosto de 2012

PRIMEIROS SOCORROS


Nem mercúrio cromo 
pode curar a sanguínea de um coração que explode. 

PAOLA BENEVIDES

22 de julho de 2012

IMERSÃO




O banheiro sempre foi um dos lugares mais propícios à reflexão constante, à conversa interior, ao canto ecoado, paradoxalmente estendido pela estreiteza das paredes azulejadas, ao exercício de ser em nudez absoluta. Quantas vezes sentei-me no trono esquecida da minha majestade, por chorar escondida dos outros, mas nunca de mim, por segredar desejos, evacuar vontades, meditar para um deus humano em demasia, por aproximar-me tanto de tantas verdades impressas no tempo desgastado das cerdas das escovas de dente ou nos pelos das toalhas que vão perdendo o colorido e a aspereza a cada banho, com os ralos aparando o grosso teor das células mortas, urina, catarro e cabelos.

Lá já escorreguei, vomitei, gozei e caí. Fiquei horas deitada no chão pensando na vida, em como poderia ser o decurso dela. Já procrastinei estudo e trabalho lavando o rosto a cada trinta minutos, sem que houvesse suor, nem o menor sinal de oleosidade na pele, só pela ânsia da partida dos locais aos quais me inadequei e pela saudade do encontro com meu eu mais próximo, desmascarado de padrões, patrões ou correntes. Resguardada do medo, retoquei penteado e maquiagem, ensaiei meus próximos movimentos e falas, como se o mundo fosse um teatro shakespeariano. Mas era... Muito li enquanto aliviava outras necessidades, cometendo um ato de privacidade meio anfíbia, feito aquelas pererecas que conseguem invadir o box e querem ter um pé na água, outro no piso, fugindo da realidade pedregosa em terreno liso, escorregadio. 

Ainda hoje, aprecio confessar caretas para o espelho, desafiar-me com o olhar e o corpo, treinando um Strip-tease com bocas e caras antes do chuveiro, até conversar em outras línguas, puxando da alma alguns personagens latentes, estrangeiros de si próprios. Seja em casa ou no shopping, nos bares ou em restaurantes, sempre há uma cabine vaga a me fazer divagar por um momento. Os sanitários públicos mais limpos me permitem confidenciar com algum conforto as tragicomédias da vida, quando não, a imundície rabiscada nas portas, variando entre recados de amor pornográficos, a poemas de Charles Bukovski verdadeiramente me libertam.

20 de julho de 2012

INEBRIANTE


à D.


Teu perfume perfura todos os instantes
Atravessa o lume bruxuleante dos castiçais
Arranca pólen, lençóis e torrentes
Não sais de banho em corrente nem com aguarrás!

Impresso à carne, ao cerne da minha questão
Elabora vertigens com o dedo apontado à lua
És criador e criatura em tua prestidigitação
Desfaz o medo através do amor maior

Teleguio-me pela ação do teu olor, meu favorito
Ornado em cor de sensações primaveris
Sobrepostas em estantes: frascos estonteantes
Feito rito de passagem, sigamos sem gris ou nós

Só seremos livres entre os sóis pintados nas telas
A sós com o quente da alma e o bem ao nosso redor
Havendo entressafra de jasmins, produziremos velas
Da aromática dos amantes, os querubins sabem de cor

17 de junho de 2012

PREVISÃO



Lembro-me vagamente de quando um colega zen de faculdade me revelou as suas cartas de tarô e me mostrou sobre o birô dos professores alguns caminhos pelos quais possivelmente eu poderia trilhar, por expansão individual ou divina ou por teimosia minha desafiando a trajetória cósmica. Ele me falou que eu iria passar por um período crítico no auge dos meus vinte e poucos anos, mas que depois de um tempo voltaria a ficar bem, estável, só não me recordo em que área, se amorosa, profissional ou no todo mesmo. Bom, o certo é que estou beirando os trinta e fugi de um provável casamento para experimentar um novo relacionamento e ainda não encontrei emprego fixo, muito provavelmente porque não tenha me esmerado na procura, aguardando minha satisfação se manifestar em grau mais elevado. Isto em razão da minha propensão às artes ser enfática, mesmo sabendo que me manter é preciso e ser artista neste país, quanto mais neste estado, faz-se árdua tarefa com pouca compensação financeira. Eu teria de ser um achado literário, plástico, performático e musical, ter reconhecimento ampliado. Às vezes acho que faço pouco, contudo olho para trás e vejo o meu rastro por aí, então me orgulho, nesse pedacinho de mundo que se perde entre o real, o virtual e o ficcionado. Abstraio sem me trair muito. 

Atualmente, como graduada em Letras, faço trabalhos fortuitos em instituições de ensino na área de língua portuguesa, inglesa e literaturas, entretanto lucro mais como freelancer de revisão de textos, transcrição de áudio, vídeo e também tradução. Empenho-me na administração prazerosa de uma porção de blogues e redes sociais, além de me enveredar por vertentes as mais alternativas, como ter produzido um sarau em um bar cultural da cidade, ter pertencido a bandas de rock e com novas ideias musicais sempre moventes no cenário local. No momento, tenho me metido a mostrar a cara em curtas metragem, brincando de ser atriz no meio da turma do cinema na universidade. Falta-me apenas por o pezinho no teatro, para fechar o ciclo das artes e me tornar deveras multimídia. Sinto que isto não demorará tanto. Ainda pretendo expor minhas colagens e outros trabalhos gráficos afins, explorar novos meios. Tenho a mão boa. Alguém muito especial me falou um dia que sou meio Midas. Então prefiro enxergar-me assim, artesã nata do chapisco ao ouro. O que virá me provoca ansiedade, tenho dúzias de dúvidas, porém a maior certeza de que tudo valerá a pena reduz o desgaste. Almejo viagens e enriquecimento espiritual, acima do que for tangente e tangível. Não consigo me vislumbrar mãe, quero todo o tempo para gestar as minhas obras, mais tarde, quem sabe, ter um menino. Deus que me guarde e aguarde.

7 de junho de 2012

PERFUME

Felicidade não me cheira bem, 
Quando se esvai a cada passo. 
Feliz: nem o nariz do palhaço.

Paola Benevides

6 de junho de 2012

EXCREÇÃO


De três catarses orgânicas, as sensações mais prazerosas que defini para mim foram: dar uma mijada quando se está muito apertado com o acúmulo de líquidos na bexiga; ornar uma bela cagada com mil peidos despreocupados no momento em que suas tripas não podem segurar por mais nem um segundo; e gozar, suando brutalmente por todos os poros, acelerando batimentos cardíacos, perdendo o fôlego e embaralhando as outras sensibilidades por tamanho alívio, a ponto de nos fazer urrar. Os homens concretizam o ato ao lançar o sêmen ao mundo.

Afrouxar as partes baixas me parece o melhor dos descarregos corporais. É certo que existem as lágrimas, o vômito, a cusparada ou a escarrada de uma espessa placa de catarro preso, por exemplo, mas imagino serem esses tipos de despejo os mais desconfortáveis, por causarem alguma dor ou náusea dentro do refrigério gerado pela expulsão de substâncias desnecessárias ao organismo. No caso do choro, o que se é liberado mesmo são as dores de alma, irretocáveis. Pranto este que pode ser acometido pela felicidade também. Já as gargalhadas são um extravaso quase insano quando ri-se de nervoso ou da desgraça do outro. No sono, o ronco é uma liberação das mais inconvenientes, óbvio que para quem dorme ao lado do causador. E tudo começa com um bocejo, essa soltura de ar pela boca que denota, além do sono, um explícito entediamento. Não bastassem tantas crianças no mundo para sofrer com suas ejaculações existenciais precocemente, imaginem o parto como deve ser, certamente a experiência de soltura mais sublime é haver um ser dentro do outro. O que me leva a crer que jorrar faz bem e transbordar é para lá de humano.

5 de junho de 2012

CIRCULAÇÃO

Circulation through the heart

Torça para que um dia
teu abatimento cardíaco vire força, 
que mesmo no leito tenhas peito de viver 
com o coração a pular estagnadas poças.

28 de maio de 2012

EXTRA

Por: Paola Benevides

Eu sou mim com rim e bexiga, 
até os confins no fundo, dos meios. 
Nunca dou-me por mexida, 
mas inteira - mão, boca, ovos e seios 
nessa existência incompletudinal: 
assada, assim, vim de outro mundo.
ET, CÉTERA E TAL.

17 de maio de 2012

SORRIDENTE



Distribuir sorrisos:

Muita incerta gente encara 
como receber esmola e se ofende. 
Mas não entende 
Que só pode arcar com dentes
Uma boca rara.

14 de maio de 2012

SANTINHA DO PAU OCO

Paola Benevides

APRECIO O CIO DA PRECE
AS ORAÇÕES INDEFINIDAS 
NO FUTURO DE UM PRESENTE SEM LAÇO
TAL COLEÇÃO DE CAIXAS DA SEX SHOP
CONTENDO CONSOLOS
FEITO URNA DE DÍZIMO
ANGARIANDO FUNDOS 
DE FIÉIS TÃO RASOS.

10 de maio de 2012

DESAPEGO

Vínculos requerem tantos cálculos que eu prefiro os náufragos, eu perfuro ilhas com meu desejo de ser mais, por simplesmente merecer. Eu queria navegar pelo Mar Báltico, Galápagos, conhecer meus ancestrais, dirigir perigos. Vagar por aí sem ter tempo de cultivar inimigos, sair desse apartamento e propor um parto sem pai, nem mãe, nem filhos. Partir! Antes ser filha do mato e irmanar com todas as flores tecendo indrisos, que viajar por dentro dessas dores parentais, eternamente sucumbida à cria lambida. Antes, paz. Quero ir de uma ponta a outra do meu sorriso como se eu pudesse me pôr em meu próprio horizonte, ensolarada de amanheceres pródigos. Avante comigo quem quiser, quem puder me ver, com fé no trilho e no brilho de só se ter, nunca só...
E afinal, o que se é senão isso?

23 de abril de 2012

ASSIM SEJA




Em meio a todo esse emaranhado humano quase a dar-me um nó, sinto uma presença suave a elevar suas mãos à minha cabeça e bendizer o que eu mal disse. Acolhimento. Só não comparo ao amparo de mãe, porque nem todos o têm ou tiveram um dia. Mas o meu raiou, maior e com mais sim. Um pai de paz sem fim. 

19 de abril de 2012

RELÓGIO

Relo no giro das horas e começo a contar... 

Sobre minha vida.
Atraso o relógio que me quer apressar alegrias.
Acelero os ponteiros da morte pisando areia retida em ampulheta.
Onde guardarei as cinzas da espera agora senão na tua partida?
Casa sem teto, avisto um cometa.
Tudo é passagem secreta.
Tardia noite, enfim.
Viajo incerta do meu destino com toda esta bagagem.
Granizo choveu no caminho. Não sinto mais nada.
Sob asa de terna mãe Gaia, eternizo assim.

15 de abril de 2012

CAMA DE CASAL


Um cobertor de abraços para dias frios.
Um travesseiro de barriga para noites grávidas.
Um colchão de pernas para tardes entrelaçadas.
Um sonho guardado dentro da fronha.

30 de março de 2012

SOLSTÍCIO





Eu perfaço caminhos desertos com mil correntezas.
Anoiteça o que anoitecer, mantenho as luzes acesas.

27 de março de 2012

"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus".



A frase que acena para esta postagem é do Oswald de Andrade, considerado o modernista mais inovador e rebelde de seu tempo, se de vanguarda, então além. Ela está no encarte do último disco da Legião Urbana, a banda de rock de preferência nacional, a mais proeminente em fervores líricos, eu diria, ao menos para mim. Confessadamente, faz parte do meu acervo pessoal em completude, haja vista possuir a discografia em CDs originais (raro K7 ou LP) apenas de dois grupos, os meus favoritos desde sempre: Legião Urbana e U2.

Mesmo tendo plena consciência de suas influências explícitas na música internacional (do pós-punk), por terem bebido na fonte de nada menos que The Smiths, The Cure e tantas outras, o valor expresso por suas canções acaba sobrepondo qualquer comparação meramente estética pela paixão suscitada em tantos jovens - os de ontem e os de hoje. Lembro de ter minhas audições constantemente interrompidas pelo meu irmão, na época, ao qual sempre devotei um grande respeito, não só por aquela concepção de ser o mais velho, mas principalmente por manjar muito bem desse assunto, apesar das implicâncias. Ele torcia o nariz em críticas ferinas ao gestual Morrisseyniano do Renato, aos timbres de guitarra similaríssimos aos de fulano e beltrano, os quais passei a garimpar por curiosidade quase instantânea. Isso nunca tirou os méritos de ninguém, pelo contrário, continuei gostando com lucidez e, melhor ainda, com o bom gosto estendido a outras searas musicais.

Especialmente pelas letras de Renato Manfredini Jr., o Russo, é que me sinto sensibilizada, tornei-me mais humanizada e amadurecida dos meus onze anos pra cá. Não seria tanto se revelasse que meu gosto pela escrita se aflorou a partir daí, na adolescência. Abastecia-me de encantamentos em minha introspecção naquela época, viajando nas melodias, brincando de tocar teclado no jardim da minha antiga casa ou mesmo cantando trancada no quarto, fazendo performances para mim mesma. Ensimesmada nem tanto, levando em conta que compartilhava o som alto com os vizinhos e alguns deles respondiam com mais Legião da janela. Era bonito de se ver. Período deliciosamente solitário, a não ser quando ia para a escola e compartilhava discos, álbuns de foto dos ídolos, revistas ShowBizz, cadernos com poesia e rabiscos.

Os tempos de escola chegavam ao fim. No terceiro ano do ensino médio, pré-vestibulanda ainda, conheci uma menina mais tímida do que eu. Ela se chamava Natália, era brilhante, o primeiro lugar geral e aquele blá-blá-blá todo que faziam em torno dela a incomodava veementemente. Vêm à mente agora as bochechas dela ficando cor cereja por tudo isso... Sempre soube que o que mais a instigava era falar sobre rock e livros com alguns poucos colegas, senão falar, era mais de ouvir. Afinidades, exceto pelos conflitos interiores pesadíssimos com os quais ela se defrontava quando eu emprestei o disco A Tempestade ou O Livro dos Dias, este aqui do link disponibilizado na íntegra.

Eu me culpava por ter feito isso naquele momento de tamanha crise, porque julgava as canções por demais tristes. Natália suicidou-se e a atmosfera dessas músicas me marcou deverasmente. Reouvi-las hoje já me traz frescor à alma, pois percebo mensagens bastante positivas cantadas por Renato nas entrelinhas, por mais que este álbum tenha selado a sua morte (favor considerar aqui a sua partida como uma temporada pela eternidade e um rico aparato para esta juventude).

26 de março de 2012

ENCARNADA

Tenho estranhado minhas tripas em nó, temo que elas encontrem o coração logo cedo pela manhã e eu não acorde para a vida sem massagem cardiorrespiratória, piratória nossa, senhora desaparecida. Minha garganta tem doído, também meu colo um dia adúltero. Seriam os estridentes pesadelos sufocando até o grito dos antepassados-batidos? Tendo a pensar que só se deve cortar o mal pela raiz na base do pescoço e à base de muita pancada. Minha cabeça parece um coco cheio de vida e pensamento que caiu do pé ainda verde, distribuindo doçura ao mesmo tempo que mata toda a sede. É dura a casca, mas quem me sabe por dentro de verdade engole meu grude, meu lado mais rude e meu açude inteiro, jamais será náufrago. Vermelho o viço dessa visceralma que mancha lábios verborrágicos de tanto batom. É alto o mar e já se avista com perigo a vinda do próximo paquete (A expressão "estar de paquete" é ocasionalmente usada por razões históricas[1] para se referir a mulheres em seu período de menstruação. Outras fontes sugerem diferente explicação: Tal referência se deu por comparação entre o tempo exato de 28 dias para realizar o trajeto entre o Rio de Janeiro e Liverpool, no Reino Unido, pelos novos navios a vapor (os paquetes) e o ciclo menstrual.)